Hoje foi um dia estranho.
Eu ia dar uma aula particular de matemática para a minha prima, mas a minha tia ligou algumas horas antes falando que ela estava doente e que não ia rolar. Beleza, ia dar para eu chegar na usp a tempo da minha aula de introdução aos estudos da educação.
Ok, chego lá com uns 10 minutos de antecedência até. A sala está um forno, decido ligar o ventilador. Ele funciona, mas sem rotacionar, fica só numa direção, sabe? Aí um cara x da física, muito simpático, fala para mim:
- Era legal que ele girasse, né? Segura a cadeira para mim que eu vou destravar ali em cima.
Desligo o ventilador e ele sobe. Quando ele vai girar o negocinho o vetilador cai da base e fica meio torto.
- Encaixa ele de novo e vamos ligar sem ele se mexer mesmo.
Fazemos isso. Eu ligo. O ventilador começa a girar muito rápido e cai da base, fica preso só por um fio. Segundos depois uma das pás cai e aquele negócio redondo onde está escrito "ventisilva" caem fazendo um barulhão. Como se não bastasse o fio da tomada arrebenta: fica o plug preso na parede e o fio sem ponta no ar. A classe inteira começou a rir, como que um ataque de riso. Fiquei vermelho de vergonha. Colocamos o vetilador mais ou menos no lugar e deixamos a pá e o vetisilva na mesa da professora.
Uns 5 minutos depois chega a monitora.
- A professora está doente e não pôde vir dar aula hoje.
Fizemos um exercício a partir do texto e ficamos livres mais cedo, umas 15:30.
No caminho da FE para a FFLCH ouvi um celular tocar. Não era o meu, e não tinha ninguém por perto. Fiquei alguns segundos confuso até que vi um celular sem dono sobre um banco. Continuava tocando. Na tela se lia "número desconhecido". Olhei para os dois lados. Ninguém. Atendi.
- Alô?
- Alô, quem fala?
- É o márcio, mas esse celular não é meu.
- É, esse celular é meu.
- Deve ser.
- Onde você está?
- Perto do bandejão central.
- Eu estou aqui na reitoria. Onde eu posso te encontrar?
- Naquela praça onde fica o relógio de sol, no banco onde eu encontrei o celular.
- Está bom.
- Ok, te espero aqui.
- Estou com uma camisa verde listrada de branco.
Demorou uns 5 minutos para chegar. Eu fiquei bastante tentado a xeretar as fotos que ele tinha tirado. A camisa dele tinha algumas listras vermelhas também, horizontais, ele era gordinho, baixinho e careca. Me agradeceu.
Andei até a FFLCH, estava com a maior cara de chuva. Deixei minha mochila na sala de estudos e fui ver umas coisas na proaluno. Acabei pegando um computador que tem um teclado de merda e desencanei de mandar o imeil que estava planejando.
Sai de lá devaneando e resolvi ir no banheiro antes de sentar para estudar. Estava tão distraído que entrei automaticamente na primeira porta. Era o banheiro feminino, é claro. Uma menina que escovava os dentes começou a rir, e uma amiga dela que chupava uma laranja recostada na pia fez uma cara de susto. Sai automaticamente, sem falar nada. A menina chupando a laranja me pareceu uma imagem surreal.
Esse tipo de engano é comum, já que no mesmo andar 2 banheiros masculinos ficam à esquerda do feminino e 1 à direita, e 2 banheiros femininos e 1 masculino não estão sinalizados.
Bom, passei em frente à sala de estudos mas resolvi comprar um bolo antes de entrar.
- Esse bolo é divino.
- É ótimo mesmo.
- A laura está aí?
- Aaacho que não, acho que ela deve chegar para a palestra.
- Ah, a palestra ainda não foi?
- Não, é às 5 e meia.
- Hum, tá bom.
- Você quer que eu mande algum recado? Devo encontrar ela mais tarde...
- Não, só queria saber mesmo.
- Ok, até mais então.
- Até mais, querido.
Era a Marcia Lima, minha professora de métodos e técnicas de pesquisa 1. O pessoal do meu ano tinha um time que chamava "Marcia Lima Futebol Clube", porque eles jogavam quando matavam a aula dela. Ela usou as palavras "divino" e "querido", eu tenho certeza.
Voltei para a sala de estudos e quem é que estava sentada na mesa do lado da minha? A aline, lendo camões como quem está lendo há umas 4 horas. Será que ela estava lá quando eu passei e eu não tinha percebido? Não, ela chegou depois mesmo.
Foi então que eu contei essas loucuras todas.
Não são coisas tão estranhas assim, mas se fosse um conto do cortázar elas seriam um bom gatilho para alguma coisa realmente fantástica. Portas abertas, gatilhos. Perigosamente concentrados em um dia.