terça-feira, 24 de novembro de 2009

Desse meu jeito

- Alô?
- Alô Laura, aqui é o márcio, tudo bem?
- Tudo. Márcio, eu já estou chegando em casa, posso te ligar daqui a pouco?
- Claro.
- Te ligo no celular, está bem?
- Certo, até logo.
- Até.

[Quinze minutos depois]

- Oi Laura.
- Oi Márcio, pode falar.
- Não, é que você tinha me falado ontem para a gente resolver a história do relatório da FAPESP hoje e eu te liguei para a gente ver como é que a gente faz.
- ...
- Que foi?
- Nada, só estou rindo.
- Rindo do que?
- Não sei, do seu jeito.
- Que jeito?
- Esse seu jeito de falar as coisas.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Segunda-feira, 23 de novembro

Hoje foi um dia estranho.
Eu ia dar uma aula particular de matemática para a minha prima, mas a minha tia ligou algumas horas antes falando que ela estava doente e que não ia rolar. Beleza, ia dar para eu chegar na usp a tempo da minha aula de introdução aos estudos da educação.
Ok, chego lá com uns 10 minutos de antecedência até. A sala está um forno, decido ligar o ventilador. Ele funciona, mas sem rotacionar, fica só numa direção, sabe? Aí um cara x da física, muito simpático, fala para mim:
- Era legal que ele girasse, né? Segura a cadeira para mim que eu vou destravar ali em cima.
Desligo o ventilador e ele sobe. Quando ele vai girar o negocinho o vetilador cai da base e fica meio torto.
- Encaixa ele de novo e vamos ligar sem ele se mexer mesmo.
Fazemos isso. Eu ligo. O ventilador começa a girar muito rápido e cai da base, fica preso só por um fio. Segundos depois uma das pás cai e aquele negócio redondo onde está escrito "ventisilva" caem fazendo um barulhão. Como se não bastasse o fio da tomada arrebenta: fica o plug preso na parede e o fio sem ponta no ar. A classe inteira começou a rir, como que um ataque de riso. Fiquei vermelho de vergonha. Colocamos o vetilador mais ou menos no lugar e deixamos a pá e o vetisilva na mesa da professora.
Uns 5 minutos depois chega a monitora.
- A professora está doente e não pôde vir dar aula hoje.
Fizemos um exercício a partir do texto e ficamos livres mais cedo, umas 15:30.
No caminho da FE para a FFLCH ouvi um celular tocar. Não era o meu, e não tinha ninguém por perto. Fiquei alguns segundos confuso até que vi um celular sem dono sobre um banco. Continuava tocando. Na tela se lia "número desconhecido". Olhei para os dois lados. Ninguém. Atendi.
- Alô?
- Alô, quem fala?
- É o márcio, mas esse celular não é meu.
- É, esse celular é meu.
- Deve ser.
- Onde você está?
- Perto do bandejão central.
- Eu estou aqui na reitoria. Onde eu posso te encontrar?
- Naquela praça onde fica o relógio de sol, no banco onde eu encontrei o celular.
- Está bom.
- Ok, te espero aqui.
- Estou com uma camisa verde listrada de branco.
Demorou uns 5 minutos para chegar. Eu fiquei bastante tentado a xeretar as fotos que ele tinha tirado. A camisa dele tinha algumas listras vermelhas também, horizontais, ele era gordinho, baixinho e careca. Me agradeceu.
Andei até a FFLCH, estava com a maior cara de chuva. Deixei minha mochila na sala de estudos e fui ver umas coisas na proaluno. Acabei pegando um computador que tem um teclado de merda e desencanei de mandar o imeil que estava planejando.
Sai de lá devaneando e resolvi ir no banheiro antes de sentar para estudar. Estava tão distraído que entrei automaticamente na primeira porta. Era o banheiro feminino, é claro. Uma menina que escovava os dentes começou a rir, e uma amiga dela que chupava uma laranja recostada na pia fez uma cara de susto. Sai automaticamente, sem falar nada. A menina chupando a laranja me pareceu uma imagem surreal.
Esse tipo de engano é comum, já que no mesmo andar 2 banheiros masculinos ficam à esquerda do feminino e 1 à direita, e 2 banheiros femininos e 1 masculino não estão sinalizados.
Bom, passei em frente à sala de estudos mas resolvi comprar um bolo antes de entrar.
- Esse bolo é divino.
- É ótimo mesmo.
- A laura está aí?
- Aaacho que não, acho que ela deve chegar para a palestra.
- Ah, a palestra ainda não foi?
- Não, é às 5 e meia.
- Hum, tá bom.
- Você quer que eu mande algum recado? Devo encontrar ela mais tarde...
- Não, só queria saber mesmo.
- Ok, até mais então.
- Até mais, querido.
Era a Marcia Lima, minha professora de métodos e técnicas de pesquisa 1. O pessoal do meu ano tinha um time que chamava "Marcia Lima Futebol Clube", porque eles jogavam quando matavam a aula dela. Ela usou as palavras "divino" e "querido", eu tenho certeza.
Voltei para a sala de estudos e quem é que estava sentada na mesa do lado da minha? A aline, lendo camões como quem está lendo há umas 4 horas. Será que ela estava lá quando eu passei e eu não tinha percebido? Não, ela chegou depois mesmo.
Foi então que eu contei essas loucuras todas.
Não são coisas tão estranhas assim, mas se fosse um conto do cortázar elas seriam um bom gatilho para alguma coisa realmente fantástica. Portas abertas, gatilhos. Perigosamente concentrados em um dia.

sábado, 21 de novembro de 2009

Símbolo de Status

- Ela é tão rica mais tão rica que no café da manhã da casa dela tem tipo pratinhos com frios na mesa, e o presunto já está lá, enroladinho, às 7:00 da manhã.

(essa é da mique)

Antinomias da moda

- Ai meu deus, eu não acredito!
- O que?
- Olha o rasgo na calça dela!
- O que é que tem?
- Ela está usando uma calça rasgada!
- A sua calça também está rasgada...
- Ah, mas eu já comprei ela assim.

Esse foi vivido pela aline.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Orientação dos Gatos I

Primeira parte/parágrafo do projeto "oreintação dos gatos" (ver esse post).

I.

Quando Alana e Osíris me olham não posso queixar-me da menor dissimulação, da menor falsidade. Olham-me de frente, Alana sua luz e Osíris seu raio verde. Também entre eles se olham assim, Alana acariciando o negro lombo de Osíris que levanta o focinho do prato de leite e mia satisfeito, mulher e gato conhecendo-se em planos que me escapam, que os meus carinhos não conseguem superar. Faz tempo que renunciei a toda autoridade sobre Osíris, somos bons amigos a uma distância intransponível; mas Alana é minha mulher e a distância entre nós é outra, algo que ela parece não sentir mas que se interpõe em minha felicidade quando Alana me olha, quando me olha de frente que nem Osíris e me sorri ou me fala sem a menor reserva, dando-se em cada gesto e cada coisa como se dá no amor, ali onde seu corpo é como seus olhos, uma entrega absoluta, uma reciprocidade ininterrompida.

Essa série eu publico originalmente no ninfetasemfúria, blog do qual participo às quintas-feiras. Esse post tem 1 semana de atraso em relação ao ninfetas, o que significa que clicando aqui você já vê a segunda parte do projeto.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Mulher melancia

COMI A MULHER MELANCIA
(meu pau saiu cheio de carôço)

Esse escrito que eu encontrei no banheiro da letras porta um humor estranhamente inteligente. Vamos pensar em termos de camadas de significados para ver se me explico:
1) ambiguidade do verbo "comer": comer no sentido de se alimentar e comer no sentido de participar de uma relação sexual na posição ativa.
2) ambiguidade de "comer melancia": comer a melancia no sentido de se alimentar de sua polpa e comer a melancia no sentido de manter relações sexuais com a melancia.
3) associação entre o sexo com melancias e o fracasso da vida sexual: num contexto genérico ter relações sexuais com uma melancia e ficar com "o pau cheio de caroço" seria uma situação digna de pena, nojo ou desprêzo.
4) associação da mulher com a melancia: a mulher melancia enquanto fenômeno midiático associa diretamente a feminilidade a uma fruta comestível. Nesse sentido, a mulher em questão fica sujeita à ambiguidade do verbo "comer" e, portanto, a fantasias sexuais.
5) distância entre "comer" a melancia e "comer" a mulher melancia: se pensarmos na amibiguidade do vermo "comer"(ingerir/ transar) teremos 4 situações, marcadas por graus distintos de normalidade e desejabilidade.
a. transar com a mulher melancia = muito desejável (se pensarmos que a mídia a promove como sex-symbol, objeto sexual, fantasia erótica, etc...)
b. ingerir uma melancia = normal, desejável
c. transar com uma melancia = anormal, grotesco, deprimente, desprezível
d. ingerir a mulher melancia = absurdo, impensável (ininteligível = é possivel que essa opção seja simplesmente desconsiderada numa leitura superficial).
6) ambiguidade entre "transar com uma melancia" e "transar com a mulher melancia": a sequência das duas frases ("comi a mulher melancia"/ "meu pau saiu cheio de caroço") produz uma curiosa confusão entre a mulher melancia e uma melancia. propor que o interior da mulher melancia seja repleto de caroços significa colocar a mulher melancia num dominio fantástico entre uma mulher e uma fruta, entre um objeto de desejo sexual e uma alternativa desesperada para a satisfação de instintos sexuais, entre a realização egocêntrica de uma fantasia e o desespero grotesco de um indivíduo depravado em um mundo decadente.

Em última instância estamos diante de um jogo extremamente rico que entrelaça diversas dimensões de um imaginário fragmentado e constitui uma síntese densa de um campo de tensões. O compartilhamento dos significados produzidos nesse exercício reafirmam de forma marginal as conexões subreptícias que nos conectam em redes de referências coletivas.

:P
Tenho a ligeira impressão que viajei mais uma vez.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

A síndrome do nascimento virgem

A Marilyn Strathern, uma deusa da antropologia sobre a qual falei nesse post, escreveu um artigo genial chamado "Necessidades de Pais, Necessidades de Mãe" no qual ela reflete sobre a reação da mídia inglesa ao fenômeno de mulheres virgens que buscavam clínicas de reprodução assistida para engravidar tendo como contraponto uma pesquisa de campo realizada na melanésia.
O objeto central de análise dela é a expressão "a síndrome do nascimento virgem", que seria repetida infinitas vezes nos mais diversos contextos.
Tudo isso para falar que uma dupla de rabiscos encontrada no banheiro da letras e que pode ser vista na foto abaixo me pareceu uma definição perfeita da "síndrome do nascimento virgem". Sei lá, quem leu o artigo deve entender.


- Somos todos filhos da buceta, do pau, da porra e do tesão.
- Eu sou bebê de proveta...

Os Anais da FFLCH

Nome sugerido pela minha irmã Paola para a minha série de fotos sobre escritos em paredes de banheiros. Eu achei perfeito, um trocadilho sujo e inteligente. Vamos lá, essa aí é do banheiro da letras, é claro:


"O Serra comeu a Soninha e depois fumou um baseado"
Esse desenho em cima é genial, pena que a foto saiu meio borrada.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

FAPESP e você, tudo a ver

10 coisas que eu odeio na FAPESP

1. eles te obrigam a fazer um documento alegando que a sua pesquisa não produz radioisótopos (?)
2. eles te obrigam a fazer um documento alegando que você não vai utilizar cobaias humanos (!)
3. eles decidem que a sua pesquisa começou 2 meses antes da sua bolsa ter sido aprovada e 4 meses antes de você receber a primeira parcela.
4. eles te obrigam a entregar um relatório científico semestral 2 meses depois de você ter recebido a primeira parcela da bolsa.
5. eles te dão R$ 500,00 que você simplesemente não consegue gastar por causa da burocracia envolvida
6. eles ameaçam cancelar retroativamente a sua bolsa se você receber dinheiro de algum lugar que não seja a FAPESP (cancelar retroativamente = fazer você devolver todas as parcelas que você recebeu com juros e correção monetária). obs: eles tem uma moeda própria, o dólar FAPESP.
7. eles te pedem documentos que precisam ser assinados pelo diretor da sua faculdade. Não, não pode ser o chefe do departamento.
8. eles te obrigam a abrir uma conta no banco Nossa Caixa.
9. eles devolvem o seu projeto porque você não escreveu em um dos quadradinhos que você é estudante da sua universidade, apesar de haver pelo menos outras 10 ocasiões você não só mencionou como provou que é estudante da sua universidade.
10. se o seu projeto é devolvido você precisa começar tudo do zero e emitir todos os documentos de novo com novas datas, inclusive o dos radioisótopos.

2 coisas que eu gosto da FAPESP

1. Eles me pagam R$ 423,70 por mês.
2. O nome "FAPESP" fica muito bonito no meu lattes

é, eu estou meio puto com a FAPESP hoje.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Shimeji rules

Nas últimas duas semanas fizemos aqui pelo peçanha uma detalhada enquete sobre um assunto extremamente importante, uma questão vital para qualquer brasileiro cônsul de seus deveres de cidadão: cogumelos.
Vejamos os resultados.

Que tipo de cogumelo RULES?

a. Champignon
1 (7%)
b. Shimeji
10 (71%)
c. Shitake
0 (0%)
d. Porcini
0 (0%)
e. O que produzir as alucinações mais legais
1 (7%)
f. Qualquer um que esteja longe do meu prato
2 (14%

Os resultado eram previsíveis: Shimeji RULES!
Alguns de você devem estra pensando que a shitake (minha gata) deve estar deprimida por que o cogumelo que daria origem ao seu nome não recebeu um único voto. Mas não se preocupem: eu expliquei para ela que se o tema da enquete fosse "que nome de cogumelo ficaria mais legal num gato?" o shitake ganharia com certeza.
E mostrei essa tirinha do yuri para baixar a moral do shimeji:

[clique em cima para ver num tamanho mais decente]
Lembrava do desenho dessa tirinha ser um pouco diferente. Não lembrava de ser colorido também.